didascálias sem drama: Apertar no Play antes de começar a ler
E falar assim, com o português do “Brasil” que ainda resta.
Faltam menos de 24 horas para ter vivido quase metade da minha vida em Portugal.
As memórias esquecem de certos pormenores e alguns pormenores fogem da memória.
É engraçado olhar para trás e ver as migalhas que deixei para trás:
- Silves
- Portimão
- Costa da Caparica
- Camarate
- Oliveira do Hospital
- Queluz
- Cacém
- Chelas
- Leça da Palmeira
E quem conhece, sabe que é muita migalha, muito pão ralado que caminhei nessa vida.
E todos a quem conheci.
Os sítios onde fui.
Vivi alguma coisa, alguma boa coisa, para quem só tem 21.
Já fiz muita porcaria para quem só tem 21.
E resumir isso tudo que é viver vivendo é, não só complicado, mas vão.
Há sempre um qualquer com uma história de vida, feita num livro melhor que o nosso. Do outro lado, há aqueles que gostam de ler rascunhos.
Há sempre um qualquer que não se acha um qualquer.
E eu sempre pensei que era um peixe do mar, não de aquário.
E sempre pensei que os peixes do mar tivessem uma vida em grande.
E, hoje, sei que no aquário do mar, tudo tem limite, tudo tem lugar, tudo tem propósito.
Alguém escreveu que éramos filhos de peixes.
Alguém escreveu que éramos burros.
Alguém escreveu que éramos cães.
Alguém escreveu que éramos macacos.
E já escrevi muita coisa.
E não me revejo em muita coisa que escrevi.
Quem escreve, pode escrever o futuro, mas escreve o futuro do presente.
E o futuro do presente é fácil escrever.
Ainda mais fácil de ler.
Quem escreve, pode escrever o passado, mas já é passado, já foi vivido. Para que escrevê-lo?
Para o que escreve o presente, ter o que ler.
Para que, quem escrever o futuro, saber escolher o que ler.
Eu não escrevo o que vejo.
Escrevo a minha cegueira.
Escrevo o desejo de ver.
E, por escrever tantas vezes, as letras confundem umas ás outras.
E, por tentar ver, as imagens confundem-se com letras.
Quem escreve, não sabe cantar.
Quem canta, sabe ler.
Quem lê o que escreveram, canta.
Quem lê o que escreveu, encanta.
E são 21.
Anos enrolados em letras e versos.
Eu comecei por falar em concreto.
É difícil escrever em concreto.
Quem escreve em versos, é fraco.
Quem escreve em prosa é mais forte.
Quem não escreve, não vai longe.
Existe sempre algo por escrever.
É impossível não saber escrever.
Em prosa ou em verso.
Existe sempre alguém para ler.
E, no fim de tudo, a vontade de escrever não morre, não adormece, não diminui, não envelhece.
Tudo envelhece, menos as palavras.
Nascemos num caderno por escrever.
Envelhecemos em linhas preenchidas.
Morremos em breves palavras gravadas na lápide.
Eternamente seremos conhecidos pelas palavra que escolhemos materializar fora do papel.
Já sorri muito para quem só tem 21.
