Eu conheci um gajo.
Não há muito para dizer acerca dele.
Mudava-se de cidade com uma constância quase constante.
Após ter encontrado a cidade que arde, resolveu fazer daí o seu pousio permanente.
Mas como a única coisa permanente são os penteados, mesmo estes precisam de constante permanência (se é que me entendem), a mudança continuou a ser uma constante presente, desta vez sozinho.
Sempre com uma margem de erro grande, o rapaz não ligava muito a certas preocupações. Podemos dizer que aproveitava bem a vida, como qualquer frívolo o faria.
E aqui cospe-se um cliché que fica sempre bem: Uma conduta distraída só pode levar o Peugeot Junior de 88′ da vida a embater contra um Jaguar.
O Jaguar é reposto, carros destes tem a capacidade de ser recicláveis.
O Peugot Junior de 88′ morre.
E as margens diminuem.
A água começa a subir.
Os corpos começam a afogar.
E aí as escolhas, além de necessárias, são tomadas sob pressão.
(A única coisa boa sob pressão é a cerveja.)
A responsabilidade, disse-me o rapaz, é dele.
Por todas as decisões que tomou e pelas que não tomou.
E aprendeu algumas coisas engraçadas, que de engraçado não têm nada:
- O prazer imediato é tanga. Queres ter prazer imediato, prepara-te para a dor duradoura.
- O sorriso pode durar uma noite, mas as lágrimas vêm pelo amanhecer e duram até o anoitecer.
- As decisões devem ser tomadas. As escolhas devem ser feitas. As desculpas evitadas. As casas de banho limpas. Os quartos arrumados. Os problemas resolvidos. O perdão pedido. As consequências devem ser enfrentadas.
- Não existem atalhos. As saídas existem para quem pode sair. As entradas para quem aceita entrar. Mas não existem formas de encurtar o caminho entre a saída e a entrada.
- As flores cheiram-nas quem já escorregou na porcaria e levantou. A quem foi dado o dom de não passar pela porcaria que defeca, a ignorância serve como preceito para manter a boca calada.
- A preocupação genuína surge da amizade verdadeira. O resto são resmungas e maldizer.
- O respeito é para ser mantido. A amizade é para conservar. O amor para cultivar. O trabalho para trabalhar. Os fins-de-semana para descansar. As férias para desmaiar.
- Por último, e não menos importante, a vida sem Deus não vale nada.
E não é por tirarmos conclusões desta vida,
Que a caminhada acaba.
E não é por tirarmos conclusões desta vida,
Que as coisas melhoram.
As segundas não deixam de ser segundas apenas porque compreendeste o sentido da vida.
Eu conheci um gajo.
E há muita coisa para dizer acerca dele.
E as coisas ficam bonitas com um final moralista:
Deus não escreve direito em linhas tortas.
Ele é Deus, não é nenhum deficiente.
Ele escreve direito em linhas direitas.
Nós é que não sabemos ler.
Gostei tanto que ate publiquei no meu mural do Face!